O sonho elétrico de João Gurgel: a história do pioneiro que desafiou o mercado e o tempo
Engenheiro brasileiro criou o primeiro carro elétrico da América Latina na década de 70, mas enfrentou barreiras técnicas e falta de apoio governamental.
João Augusto Conrado do Amaral Gurgel foi muito mais do que um empresário do setor automotivo; ele foi um visionário que acreditava na soberania tecnológica do Brasil. Formado em engenharia mecânica e eletricista, Gurgel fundou a Gurgel Motores em 1969 com o lema de que "carro não se compra, se faz". Sua maior ousadia, no entanto, ocorreu em 1974, quando apresentou ao mundo o Itaipu E150, o primeiro carro elétrico desenvolvido na América Latina.
O modelo, batizado em homenagem à usina hidrelétrica que começava a ser construída, era um minicarro urbano com design trapezoidal. Gurgel defendia ferrenhamente que o futuro da mobilidade era a eletricidade, posicionando-se contra o programa Proálcool da época. Para o engenheiro, a terra deveria ser usada para produzir alimentos e não combustível, o que o colocou em rota de colisão com os interesses políticos e econômicos do período.
Apesar do pioneirismo, o projeto enfrentou obstáculos que persistem até hoje. O principal gargalo era a bateria. O Itaipu utilizava baterias de chumbo-ácido, que eram extremamente pesadas, levavam cerca de 10 horas para carregar e ofereciam uma autonomia limitada de apenas 50 a 80 quilômetros. Além disso, a tecnologia "viciava" rapidamente, perdendo capacidade de carga em pouco tempo de uso.
O veículo não chegou a ser comercializado em larga escala para o público final, sendo utilizado principalmente por empresas estatais de energia e telefonia como projeto piloto. Sem incentivos fiscais do governo, que priorizava o etanol, e sem uma infraestrutura de recarga nas cidades, o custo de produção tornou-se inviável. João Gurgel ainda tentou uma segunda investida com o utilitário E400, mas a falta de apoio financeiro e a resistência das montadoras multinacionais sufocaram a iniciativa.
O fim da Gurgel Motores ocorreu nos anos 90, após a abertura das importações e a negação de empréstimos solicitados ao BNDES. João Gurgel faleceu em 2009, deixando um legado de inovação que só viria a ser plenamente compreendido décadas depois, com a ascensão global dos veículos elétricos. Seu sonho, embora interrompido, provou que o Brasil já detinha, há 50 anos, a tecnologia que hoje é vista como a salvação da indústria automotiva mundial.
Para entender melhor visualmente a jornada desse inventor, este vídeo explora em detalhes a trajetória da marca: A história da Gurgel e o carro elétrico. Ele traz imagens históricas dos modelos citados e ajuda a contextualizar o cenário político e econômico que levou ao fechamento da fábrica.
