Como o governo trocou o 'Teto de Gastos' pelo 'Piso Social' e o impacto no bolso do brasileiro
Retrospectiva detalha os marcos econômicos, as vitórias legislativas e as derrotas fiscais que moldaram o país entre 2023 e 2026.
Desde a vitória apertada em 30 de outubro de 2022, com 50,9% dos votos, o terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva tem sido uma montanha-russa de indicadores sociais positivos e tensões fiscais crescentes. Ao completar três anos de gestão, o governo apresenta um Brasil de contrastes: o menor desemprego da história e a saída de milhões da pobreza, convivendo com um recorde de intervenções tributárias e volatilidade cambial.
2023: O Ano das Reformas e do Gasto Social
O governo iniciou 2023 com pressa. Logo no primeiro dia útil, o ministro Fernando Haddad reverteu desonerações de PIS/Cofins, sinalizando que a arrecadação seria a prioridade. Amparado pela PEC da Transição, que permitiu um gasto extra de R$ 145 bilhões fora do teto, o governo turbinou o Bolsa Família e concedeu o primeiro ganho real ao salário mínimo (R$ 1.320) em quatro anos.
No Legislativo, o governo obteve vitórias históricas:
- Arcabouço Fiscal: Substituiu o antigo teto de gastos, permitindo o crescimento das despesas acima da inflação.
- Reforma Tributária: Após 30 anos de debates, o Congresso simplificou o sistema, criando o IVA (Imposto sobre Valor Agregado), embora com o risco de o Brasil atingir a maior carga sobre consumo do mundo (estimada em 28%).
O ano terminou com PIB em alta (3,2%), inflação dentro da meta e a Bolsa subindo 20%. Contudo, o déficit de R$ 230 bilhões acendeu o alerta sobre a sustentabilidade das contas públicas.
2024: Crise Cambial e o Embate com o Banco Central
O segundo ano foi marcado pela resistência da inflação e pelo dólar, que atingiu a máxima histórica de R$ 6,26 em dezembro. A popularidade do governo sofreu com a "taxa das blusinhas" (imposto sobre compras internacionais de até US$ 50) e com a escalada da Selic, que chegou a 15% sob a gestão de Gabriel Galípolo, sucessor de Roberto Campos Neto.
O discurso oficial culpou fatores externos e o preço dos alimentos (carne e café), mas o mercado reagiu ao déficit primário de R$ 68 bilhões. Foi um ano de "vencer no social, mas empatar no fiscal".
2025-2026: O Peso dos Impostos e a Reta Final
Chegando ao terceiro ano, o governo enfrentou uma crise de narrativa. Um manifesto da oposição viralizou ao apontar que Lula elevou ou criou impostos 27 vezes desde a posse. Medidas como a tentativa de monitorar transações via Pix acima de R$ 5 mil e a proposta de taxar investimentos isentos (LCI/LCA) foram recebidas com forte resistência e acabaram derrubadas ou revogadas.
Curiosamente, o próprio presidente utiliza instrumentos de eficiência fiscal, como a previdência privada (VGBL), para proteger seu patrimônio — um exemplo de como o planejamento financeiro se tornou essencial para o brasileiro médio enfrentar o aumento da carga tributária.
O Saldo Atual: Números Reais
Abaixo, os indicadores que resumem o momento atual do país em 2026:
| Indicador | Situação Atual (2026) | Observação |
|---|---|---|
| Ibovespa | Acima de 160.000 pontos | Máxima histórica, refletindo lucro de grandes empresas. |
| Desemprego | Mínimas históricas | Mercado de trabalho aquecido pressiona o consumo. |
| Dólar | Casa dos R$ 5,40 | Recuou após o pico de R$ 6,26, mas segue volátil. |
| Social | Brasil fora do Mapa da Fome | 8,7 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. |
| Selic | Perspectiva de queda | Após o ciclo de alta para conter o dólar e a inflação. |
A Perspectiva para as Eleições
Com o Ibovespa em patamares recordes e a inflação parecendo entrar em controle, o governo tenta recuperar a popularidade com programas como o "Gás do Povo". No entanto, o rombo em estatais (como os Correios) e o cansaço do contribuinte com o "ajuste pelo lado da receita" são os grandes desafios de Haddad e Lula para o ano eleitoral de 2027.
O Brasil de 2026 é um país que cresce e emprega, mas que paga um preço alto em impostos para manter a máquina pública e os programas sociais em funcionamento. O equilíbrio entre o "social pujante" e o "caos fiscal" será o fiel da balança nas próximas urnas.
