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Publicado: 19 de maio de 2026 às 09:30

O Custo da Complexidade: Brasil Assume o 3º Lugar no Ranking Global de Dificuldade para Negócios

Relatório anual da TMF Group aponta que o avanço da burocracia, o emaranhado tributário e a instabilidade regulatória em 2026 elevam custos operacionais e acendem o alerta para investidores estrangeiros

O ambiente de negócios brasileiro sempre foi reconhecido por sua alta volatilidade e peculiaridades jurídicas, mas os dados recentes apontam para um agravamento estrutural. De acordo com o Índice Global de Complexidade Corporativa publicado pela consultoria TMF Group, o Brasil assumiu a terceira posição entre os países mais difíceis do mundo para a operação de empresas. O avanço no ranking reflete o peso crescente das obrigações acessórias, as incertezas na transição de modelos tributários e a lentidão dos processos de conformidade, fatores que aumentam as barreiras de entrada para o capital internacional e pressionam as margens de lucro das corporações instaladas no país.

A Tríade da Complexidade: Os Principais Gargalos Operacionais

O relatório da TMF Group detalha que a dificuldade em fazer negócios no Brasil não decorre de um único fator isolado, mas da sobreposição de três grandes vetores que asfixiam a eficiência das equipes de planejamento e contabilidade.

Os componentes estruturais do Custo Brasil:

  • Hiperinflação de Normas Tributárias: O sistema de arrecadação exige que as empresas dediquem milhares de horas anuais apenas para interpretar e cumprir obrigações fiscais nas esferas federal, estadual e municipal, gerando um custo de conformidade desproporcional quando comparado à média das nações da OCDE.
  • Morosidade na Abertura e Fechamento de Empresas: Embora os processos de digitalização tenham avançado em algumas juntas comerciais, a obtenção de licenças específicas, alvarás de funcionamento e registros regulatórios ainda enfrenta uma teia de órgãos fiscalizadores com regras muitas vezes conflitantes.
  • Insegurança Jurídica nas Relações Trabalhistas: A constante necessidade de reinterpretação de contratos de prestação de serviços, terceirizações e benefícios de colaboradores mantém o passivo trabalhista como um risco financeiro de difícil precificação para os fundos de venture capital e private equity.

O Impacto na Atração de Investimento Estrangeiro Direto (IED)

A deterioração do Brasil no ranking internacional atua como um desincentivo para alocações de longo prazo por parte de corporações multinacionais, que priorizam jurisdições mais previsíveis.

  1. A Elevação do Prêmio de Risco Investidores globais passam a exigir taxas de retorno mais elevadas para compensar os gastos imprevistos com disputas judiciais e autuações fiscais. Isso encarece o custo de capital para grandes projetos de infraestrutura, energia e saneamento, setores dependentes de financiamentos internacionais de longo curso.
  2. Perda de Competitividade Frente aos Pares Emergentes Ao consolidar-se no topo dos países mais complexos, o Brasil perde espaço para outras economias em desenvolvimento que estão simplificando suas estruturas de governança corporativa. Dinheiro que poderia ser direcionado para a expansão de parques industriais ou centros de tecnologia no território nacional acaba migrando para mercados com regras de conformidade mais ágeis.

Estratégias de Sobrevivência e Eficiência para Empresas

Diante de um cenário regulatório hostil e complexo, os diretores financeiros (CFOs) e diretores jurídicos precisam blindar as operações por meio de ferramentas avançadas de gestão:

  • Aposta Intensa em RegTechs e Inteligência Fiscal: A automação tornou-se obrigatória para a sobrevivência corporativa. Utilizar sistemas de inteligência artificial voltados para a governança fiscal (regtechs) permite monitorar alterações na legislação em tempo real, reduzindo a incidência de erros humanos e multas.
  • Auditorias Preventivas de Passivos: As companhias devem antecipar os cenários de risco realizando auditorias profundas e periódicas em suas bases tributárias e trabalhistas, garantindo que eventuais contingências estejam devidamente provisionadas no balanço patrimonial para evitar surpresas em auditorias externas.

Conclusão

O posicionamento do Brasil como o terceiro país mais difícil do mundo para fazer negócios em 2026 funciona como um severo diagnóstico de que a modernização econômica do país depende urgentemente de uma simplificação burocrática real, e não apenas digital. O caso relatado pela TMF Group demonstra que o excesso de burocracia atua como um imposto invisível que drena a produtividade e afugenta o capital essencial para o desenvolvimento de infraestrutura. Para reverter essa trajetória e reaver a confiança dos investidores internacionais, as lideranças institucionais precisam entender que a previsibilidade e a clareza das regras do jogo são os ativos mais valiosos que uma nação pode oferecer no dinâmico e competitivo mercado global contemporâneo.