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Publicado: 17 de dezembro de 2025 às 07:57

Críticas à atuação do Estado reacendem debate sobre democracia e limites do poder no Brasil

Regulação das mídias, decisões judiciais, casos de impunidade e desigualdade de tratamento alimentam discurso de que o país vive uma democracia sob tensão

O Brasil vive um momento de forte polarização política e institucional, no qual decisões do Judiciário, ações do Executivo e a relação do Estado com a imprensa têm provocado debates intensos sobre os limites do poder, a liberdade democrática e o funcionamento das instituições. Para críticos do atual cenário, o país atravessa um período de enrijecimento institucional, no qual medidas legais são vistas como instrumentos de controle seletivo, gerando a percepção de uma democracia fragilizada.

Esse debate ganhou força a partir de uma sucessão de acontecimentos recentes que, somados, ampliaram a desconfiança de parte da população em relação à imparcialidade do sistema político e jurídico.

Regulação da mídia e relação com grandes emissoras

A discussão sobre a regulação das mídias voltou ao centro do debate público, especialmente diante de propostas que buscam ampliar o controle sobre conteúdos digitais e plataformas de comunicação. Para defensores, trata-se de combater desinformação e proteger a democracia. Para críticos, há o risco de restrição à liberdade de expressão, sobretudo quando medidas atingem veículos menores ou vozes dissidentes.

Ao mesmo tempo, a relação financeira do Estado com grandes emissoras, por meio de verbas publicitárias e contratos institucionais, é apontada como fator que gera assimetria no debate público, levantando questionamentos sobre pluralidade, independência editorial e acesso equitativo à informação.

Decisões judiciais e concentração de poder

Outro ponto sensível envolve o papel do Supremo Tribunal Federal e, em especial, a atuação do ministro Alexandre de Moraes, frequentemente citado por críticos como símbolo de uma concentração excessiva de poder. Decisões relacionadas a investigações, prisões, bloqueios de contas e restrições a conteúdos nas redes sociais têm sido interpretadas de formas opostas.

Enquanto apoiadores defendem que as medidas são necessárias para proteger o Estado democrático de direito, críticos afirmam que há extrapolação de competências, falta de equilíbrio entre acusação e julgamento e enfraquecimento do direito à ampla defesa.

Casos emblemáticos e percepção de seletividade

A narrativa de que há tratamento desigual perante a lei se intensificou com casos que ganharam ampla repercussão. Prisões relacionadas aos atos de 8 de janeiro, incluindo pessoas sem histórico de violência, foram usadas por críticos como exemplo de punições consideradas desproporcionais.

Em contrapartida, episódios envolvendo autoridades, familiares de figuras públicas e escândalos bilionários, como fraudes em órgãos previdenciários e denúncias envolvendo altos cargos, alimentam a percepção de impunidade seletiva. Para parte da população, o contraste entre rigor extremo para alguns e leniência para outros enfraquece a confiança nas instituições.

Ex-presidente, narrativa de perseguição e divisão política

A situação jurídica do ex-presidente Jair Bolsonaro também se tornou um dos principais eixos do debate. Seus apoiadores sustentam que há perseguição política e ausência de provas conclusivas para medidas restritivas, enquanto adversários afirmam que as investigações seguem o devido processo legal.

Esse embate aprofundou a divisão no país, transformando decisões judiciais em símbolos de disputa política, o que dificulta a construção de consenso e aumenta a tensão institucional.

Imprensa, narrativa oficial e opinião pública

A cobertura da imprensa tradicional é outro elemento central nesse cenário. Críticos afirmam que há alinhamento excessivo de parte da mídia com narrativas oficiais, enquanto vozes dissonantes enfrentariam maior resistência ou visibilidade reduzida. Defensores da imprensa rebatem, destacando o papel do jornalismo profissional no combate à desinformação.

Esse choque de percepções contribui para um ambiente em que diferentes parcelas da sociedade passam a consumir informações em bolhas, reforçando convicções e ampliando a desconfiança mútua.

Democracia sob estresse institucional

Especialistas em ciência política avaliam que o Brasil não vive uma ditadura formal, mas reconhecem que a democracia passa por um período de estresse institucional. O uso frequente de medidas excepcionais, a judicialização da política e a centralização de decisões em poucos atores são vistos como sinais de alerta.

O risco, segundo analistas, não está em um rompimento abrupto, mas em um desgaste gradual das garantias democráticas, no qual exceções se tornam rotina e a normalidade constitucional perde força.

O desafio do equilíbrio democrático

O cenário atual coloca um desafio central para o país: como proteger a democracia sem enfraquecê-la. Combater crimes, desinformação e ataques às instituições é necessário, mas exige transparência, limites claros e respeito aos direitos fundamentais.

Sem esse equilíbrio, cresce o sentimento de injustiça, alimentando discursos de ruptura e ampliando a distância entre Estado e sociedade.

Um país em disputa de narrativas

O Brasil segue dividido entre interpretações opostas dos mesmos fatos. Para alguns, as instituições estão agindo com firmeza para preservar a democracia. Para outros, há sinais de autoritarismo disfarçado de legalidade.

O desfecho desse embate dependerá da capacidade das instituições de restabelecer confiança, garantir isonomia perante a lei e promover um ambiente onde divergências políticas não sejam tratadas como ameaças, mas como parte essencial da democracia.