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Publicado: 19 de dezembro de 2025 às 09:40

Governo Lula avalia cenários de crise humanitária em caso de ataque americano à Venezuela

Fontes do Planalto temem caos pós-Maduro e fluxo intenso de refugiados na fronteira com Roraima, comparando a possíveis repetições de Líbia e Iraque

Diante da escalada de tensões entre Estados Unidos e Venezuela, o governo brasileiro monitora de perto possíveis desdobramentos de um ataque militar americano ao país vizinho, com foco em riscos de instabilidade regional e impactos humanitários diretos no Brasil.

A preocupação central, segundo fontes reservadas do alto escalão do governo Lula, é o potencial vácuo de poder que poderia surgir com uma eventual queda abrupta do presidente Nicolás Maduro. Analistas brasileiros comparam o cenário a experiências históricas como a Líbia, após a intervenção liderada por EUA e Europa em 2011 que derrubou Muamar Khadafi e resultou em guerra civil prolongada, e o Iraque, pós-invasão americana em 2003 que depôs Saddam Hussein e gerou anos de caos.

A tensão atual foi intensificada pelo anúncio do presidente Donald Trump, em 16 de dezembro, de um bloqueio “total e completo” a petroleiros sancionados que entrem ou saiam da Venezuela. Trump afirmou que o país está “completamente cercado pela maior armada já reunida na história da América do Sul”, com presença militar crescente no Caribe desde agosto, incluindo o porta-aviões nuclear USS Gerald R. Ford, navios de assalto anfíbio e operações aéreas que já resultaram em pelo menos 80 mortes em ataques a embarcações suspeitas de narcotráfico.

Em conversa telefônica com Trump no início de dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o diálogo: “O poder da palavra pode valer mais do que o poder da arma. Se você tiver interesse em conversar com a Venezuela corretamente, nós temos como contribuir. Agora, é preciso ter vontade de conversar, é preciso ter paciência”. Recentemente, Lula teve contato direto com Maduro – o primeiro desde 2024 –, mas o Brasil não se ofereceu formalmente como mediador, embora mantenha canais abertos com ambos os lados. Não houve discussão sobre asilo político ao líder venezuelano.

O principal temor brasileiro é um aumento repentino no fluxo de refugiados para Roraima, na fronteira norte. Desde 2018, o Brasil opera a Operação Acolhida, que já assistiu mais de 125 mil venezuelanos. Uma crise aguda poderia sobrecarregar essa estrutura e gerar instabilidade na região amazônica.

Internacionalmente, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu desescalada após conversa com Maduro, destacando a necessidade de contenção para preservar a estabilidade regional. Enquanto os EUA priorizam pressão financeira sobre o petróleo – principal fonte de receita venezuelana –, evitando por ora uma ofensiva direta, o governo brasileiro avalia que a estratégia americana ainda não atingiu seu ápice, mas já gera tensão contínua no Caribe.

Especialistas consultados pelo governo reforçam que, sem uma transição ordenada, a Venezuela poderia mergulhar em conflito interno prolongado, com repercussões humanitárias e migratórias em toda a América do Sul.