Fim da Escala 6x1: Ipea Estima Alta de 7,84% no Custo do Trabalho, mas Impacto Setorial é Diluído
Nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indica que indústrias e comércio teriam impacto inferior a 1% no custo operacional total; setores de serviços e segurança são os mais sensíveis.
O debate sobre a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala 6x1 ganhou um novo e robusto capítulo técnico. Segundo estudo divulgado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em fevereiro de 2026, a redução da jornada para 40 horas semanais elevaria o custo médio do trabalho celetista em 7,84%. No entanto, a análise pondera que esse aumento não se traduz necessariamente em um choque inflacionário ou na redução do nível de emprego, já que o impacto nos custos operacionais totais das empresas tende a ser limitado em grande parte da economia.
O Cálculo do Custo: Por que 7,84%?
A lógica econômica apresentada pelo Ipea trata a redução de horas como um aumento no custo da hora trabalhada. Mantendo-se o salário nominal do trabalhador, mas diminuindo a carga horária de 44 para 40 horas, o valor pago por cada hora efetivamente trabalhada sobe.
- Impacto no Varejo e Indústria: Surpreendentemente, para esses setores, o efeito seria inferior a 1% do custo operacional total. Isso ocorre porque, embora o custo do trabalho suba, ele representa uma fatia proporcionalmente pequena das despesas totais (matéria-prima, logística, impostos, etc.) desses segmentos. No comércio varejista, o impacto estimado é de pouco mais de 1%.
- Setores Críticos: Os segmentos mais afetados são os intensivos em mão de obra, como o de vigilância, segurança e investigação, onde o custo operacional poderia subir até 6,6%. Nestes casos, a mão de obra é o principal componente da planilha de gastos.
Produtividade vs. Redução de Produção
Para absorver o aumento do salário-hora, as empresas têm três caminhos principais, segundo Felipe Pateo, técnico da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Ipea:
- Aumento da Produtividade: Investimento em processos ou tecnologia para produzir o mesmo em menos tempo.
- Novas Contratações: Ampliação do quadro para cobrir as horas reduzidas.
- Redução da Produção: Ajuste da oferta à nova realidade de custos.
Comparativo Histórico: O Fantasma do Desemprego
A nota técnica do Ipea busca tranquilizar o mercado ao comparar a mudança com reajustes reais do salário-mínimo ocorridos em 2001, 2012 e 2024. Em nenhum desses momentos houve queda estrutural no nível de emprego. Da mesma forma, a redução da jornada máxima permitida pela Constituição de 1988 não provocou os efeitos negativos sobre a ocupação que eram previstos por setores patronais na época.
O Fator Desigualdade
Um dado revelador do estudo aponta que a jornada de 44 horas (escala 6x1) concentra trabalhadores de menor renda e escolaridade.
- Contratos de 40h: Média salarial de R$ 6.211.
- Contratos de 44h: Remuneração média que corresponde a apenas 42,3% do valor acima.
Para o Ipea, o fim da escala 6x1 funcionaria como uma ferramenta de redução de desigualdades, melhorando a qualidade de vida e permitindo que o trabalhador de baixa renda tenha mais tempo destinado a cuidados pessoais e familiares.
Tramitação no Congresso
A PEC do fim da escala 6x1, que unifica propostas de Erika Hilton (PSOL-SP) e Reginaldo Lopes (PT-MG), já foi encaminhada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A previsão é que o tema seja votado ainda em 2026, possivelmente precedido por um Projeto de Lei (PL) do governo em regime de urgência, para acelerar o processo.
