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Publicado: 18 de fevereiro de 2026 às 08:21

Venda da Cesta do Povo e crise no Banco Master: o elo entre a estatal baiana e o escândalo financeiro

Privatização da rede por R$ 15 milhões em 2018 é revisitada após operação da Polícia Federal revelar fraudes em crédito consignado e prender sócios de instituição financeira.

A trajetória da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), antiga gestora da rede de supermercados Cesta do Povo, transformou-se em um complexo caso que une política, mercado financeiro e investigações policiais. O processo teve início em 2018, quando o governo da Bahia, sob a gestão do atual ministro da Casa Civil, Rui Costa, concluiu a privatização da estatal por R$ 15 milhões. O valor, considerado baixo por analistas para uma rede que já registrou receitas de R$ 600 milhões, foi o desfecho de tentativas frustradas de leilão em que o Estado assumiu as dívidas da empresa para viabilizar o negócio.

A vencedora da licitação, a empresa NGV SPE Empreendimentos e Participações, do empresário Augusto Ferreira Lima, adquiriu a marca, os fundos de comércio e o direito de operar o Credcesta. Originalmente um cartão de benefícios para compras de alimentos por servidores públicos, o Credcesta foi transformado em um robusto produto de crédito consignado. Sob a nova gestão, o cartão expandiu sua atuação para além da Bahia, tornando-se uma ferramenta financeira de larga escala com desconto direto em folha de pagamento.

A evolução do negócio ganhou contornos críticos com a entrada do Banco Master na sociedade. A instituição financeira utilizou o Credcesta como um de seus principais ativos para alavancar sua carteira de crédito. No entanto, o crescimento acelerado culminou na Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. As investigações apuram suspeitas de fraudes em carteiras de crédito vendidas a outras instituições e irregularidades em operações financeiras. O cenário levou o Banco Central a decretar a liquidação extrajudicial do Banco Master e resultou na prisão de executivos, incluindo Augusto Lima, em novembro de 2025.

O desdobramento do caso reacendeu debates sobre a transparência da privatização ocorrida anos antes. Críticos questionam os decretos que concederam benefícios ao operador do Credcesta no acesso à folha de pagamentos dos servidores estaduais. Por outro lado, autoridades que participaram da venda da Ebal defendem a legalidade do processo, reiterando que a privatização foi necessária para estancar prejuízos aos cofres públicos e que os imóveis da estatal permaneceram sob propriedade do Estado, o que justificaria o valor final do leilão.

Na ponta final do sistema, servidores públicos baianos relatam transtornos. Associações de classe têm levado à Justiça queixas sobre juros elevados, dificuldades em realizar a portabilidade da dívida para outros bancos e descontos supostamente não autorizados. Com a liquidação da instituição, a segurança desses contratos e a continuidade dos serviços financeiros entram em um período de incerteza, sob a vigilância do Banco Central.

O episódio da Cesta do Povo e sua conexão com o Banco Master ilustra o risco da mistura entre ativos públicos e operações financeiras complexas. Enquanto a Polícia Federal aprofunda as investigações, o caso permanece como um alerta sobre os mecanismos de fiscalização em processos de desestatização e a necessidade de proteção ao patrimônio dos servidores públicos. As defesas dos envolvidos negam irregularidades e sustentam que os problemas fazem parte de uma reestruturação do mercado.