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Publicado: 06 de março de 2026 às 09:52

'Tática de terra arrasada' do Irã ameaça juros e inflação no Brasil, alerta José Márcio Camargo

Economista-chefe da Genial Investimentos afirma que o bloqueio do Estreito de Ormuz e a escalada militar forçam o Banco Central a manter cautela extrema com a Selic

O cenário de "guerra total" no Oriente Médio, marcado pelo bloqueio de fato do Estreito de Ormuz e pelos ataques sistemáticos entre Irã, Israel e EUA, já projeta sombras pesadas sobre a economia brasileira. Em análise publicada pelo Valor Econômico nesta sexta-feira (6), o economista José Márcio Camargo alertou que a "tática de terra arrasada" adotada por Teerã é um vetor direto de pressão inflacionária e pode interromper o ciclo de queda de juros no Brasil.

O Risco do Petróleo e do Câmbio

Para Camargo, a paralisia de 90% do tráfego em Ormuz — por onde passa 20% do petróleo mundial — cria um "choque de oferta" clássico.

  • Inflação Importada: A disparada do barril do tipo Brent (que superou os US$ 120) pressiona imediatamente os preços dos combustíveis internamente, via política de paridade da Petrobras.
  • Fuga para o Dólar: A aversão global ao risco fortalece a moeda americana. Um dólar mais alto encarece insumos industriais e alimentos, gerando um efeito em cadeia no IPCA.

Impacto na Selic

O economista destaca que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central perde margem de manobra para reduzir a taxa Selic em 2026.

"A incerteza geopolítica funciona como uma 'camada extra' de risco. Se a inflação de energia e transportes acelerar devido ao conflito, o BC não terá outra alternativa senão manter os juros em patamares restritivos para ancorar as expectativas", pontua Camargo.

Divergência com o Governo

A análise de José Márcio Camargo contrasta com o tom mais otimista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que declarou no início da semana que o conflito não traria impactos imediatos. Camargo argumenta que a "tática de terra arrasada" do Irã — que inclui ataques a centros de dados e o fechamento de rotas comerciais — internacionalizou a crise de uma forma que o Brasil, como economia aberta, não consegue ignorar.