KeeTa muda a rota: os desafios da gigante chinesa no mercado de delivery brasileiro
Controlada pela Meituan, empresa recua no Rio de Janeiro e demite 200 funcionários para focar em São Paulo; barreiras de exclusividade e logística complexa travam expansão.
A chegada da KeeTa ao Brasil, plataforma de delivery da gigante chinesa Meituan, tem sido marcada por turbulências que forçaram uma mudança drástica de estratégia em março de 2026. A empresa anunciou a descontinuação de sua operação no Rio de Janeiro, resultando na demissão de aproximadamente 200 colaboradores. O recuo estratégico visa concentrar esforços na cidade de São Paulo e na Baixada Santista, onde a marca já atua.
Apesar de um compromisso de investimento de R$ 5,6 bilhões em cinco anos, a KeeTa enfrenta um cenário competitivo árduo. A empresa alega que as cláusulas de exclusividade impostas por concorrentes dominantes, como o iFood (que detém cerca de 80% do mercado), impedem uma "competição saudável". Segundo a KeeTa, metade das redes com mais de cinco unidades no Brasil possui acordos que restringem sua presença na nova plataforma.
Os obstáculos no Rio de Janeiro e na Baixada
A operação fluminense, que recebeu R$ 400 milhões em aportes, sucumbiu a uma série de desafios específicos:
- Logística e Segurança: A exigência de entregadores exclusivos colidiu com a realidade local, onde muitos restaurantes preferem equipes próprias para navegar em áreas de acesso complexo. Relatos indicam que a necessidade de fotografar fachadas em comunidades gerou receio entre os representantes comerciais.
- Modelo Engessado: Nas cidades-piloto (Santos e São Vicente), proprietários de restaurantes reclamaram de falta de autonomia para editar preços e promoções, além de problemas técnicos no aplicativo e repasses pouco transparentes, muitas vezes com termos em chinês ou inglês.
- Comunicação Falha: Restaurantes integrados ao sistema no Rio ficaram meses sem suporte oficial, dependendo de informações informais de representantes que também sofriam com a pressão por resultados.
A guerra das plataformas
Enquanto o iFood nega que o mercado esteja fechado, citando as regras do Cade que limitam seus contratos de exclusividade a um teto por cidade, a KeeTa tenta reverter o cenário na justiça e no órgão regulador. Em São Paulo, a participação da KeeTa é estimada em 5%, contra 15% da 99Food e a hegemonia absoluta do iFood.
Para tentar ganhar terreno, a KeeTa flexibilizou seus contratos na Baixada Santista, oferecendo agora quatro modelos de parceria menos rígidos. O objetivo é recuperar a confiança dos estabelecimentos e preparar uma retomada de investimentos em marketing para abril. No entanto, sem um prazo definido para novas expansões regionais, a gigante chinesa foca agora em provar que seu modelo de negócios — que atende 800 milhões de usuários na China — pode ser adaptado à complexa realidade urbana e comercial do Brasil.
